Prólogo
A rua era tranquila e
deserta. Aqui e ali casas com amplos jardins, cercas baixas e fachada colorida
despontavam entre as inúmeras árvores frondosas nas calçadas. Era uma rua lindamente
aconchegante e fresca, muito agradável para caminhar. Talvez fosse com intenção
de apreciar tanta beleza e frescor que uma mulher subitamente surgiu do nada
ali – sim, quando eu digo surgiu do nada
quero dizer que repentinamente o ar tremulou e ela apareceu, como se atravessasse uma porta invisível. – era muito
elegante, diga-se de passagem: vestido cor de creme, um chapéu em diagonal na
cabeça, provavelmente francês, sapatos altos e brilhantes, cabelos cacheados presos
na nuca e pele morena reluzente. Seus olhos eram muito impressionantes, fortes
e cinzas; Pareciam perscrutar o local. Esta figura, apesar de sua chegada
teatral – e até sobrenatural - não assustou ninguém no momento, pois não havia
ninguém para assustar. Todos estavam em suas casas, o que era raríssimo por
aquelas bandas; Os moradores adoravam aquela rua em tudo e em todos os
momentos. Colocavam bancos nas calçadas e ficavam aproveitando o frescor e a
sombra das árvores, enquanto as crianças brincavam de pique-esconde. Portanto
foi muita sorte da moça misteriosa que não houvesse ninguém ali naquele
momento. E, mesmo de dentro das suas casas, os moradores não olharam para fora
nem por um segundo enquanto ela esteve ali, ocupados repentinamente com outros
assuntos, o que era mais raro ainda. Também não havia automóveis passando no
local; Dificilmente passava algum carro por lá. Aquela era, digamos assim, uma
rua sem importância que levava a outra rua sem importância, que levava a uma
terceira, esta já sem saída. Assim sendo, raras vezes algum carro incomodou a
quietude que ali havia.
A mulher elegante olhou para os lados,
observando a singela quietude do lugar. Começou a caminhar vagarosamente, analisando
casa após casa, como que procurando por algo muito importante e valioso. Subitamente
parou, com seus olhos cinza faiscando. Olhava estaticamente uma casa
verde-limão, com porta de madeira trabalhada, cerca branca e jardim coberto de
flores multicoloridas. Seus lábios esboçaram um leve sorriso – encontrara o que
procurava. Andou decidida até o portãozinho de madeira e abriu-o; Com um pequeno
rangido das dobradiças metálicas ela entrou no jardim. Caminhou sobre ladrilhos
bem colocados até a soleira da porta. Ali estancou pensativa, com o indicador
sobre o lábio inferior, como se tentasse lembrar-se de algo importante. Por
fim, levantou os braços, em sinal de cansada resignação:
-
Eu sabia que esqueceria! – ela falou, consternada, apalpando vigorosamente o
vestido, e subitamente lembrando-se que este não tinha bolsos. – ainda bem que trouxe isso comigo para estas
emergências – falou, retirando do decote uma pequena chave dourada. Encaixou-a
na fechadura da porta, que imediatamente estalou, transformando-se em uma porta
diferente, dourada com detalhes sutis em alto relevo. A mulher elegante girou a
chave, e a porta se abriu. Mas o que havia no outro lado não era o interior da
casa verde-limão, mas um lugar diferente: uma pequena saleta branca, sem nada
exceto por um pequeno papel enrolado no chão, como um pergaminho. Ela pegou-o e
voltou a fechar a porta. Girou a chave, e colocou-a de volta no decote. A porta
voltou ao aspecto normal – de madeira trabalhada marrom. Ela Pegou o papel-pergaminho,
beijou-o carinhosamente e depositou-o em cima do carpete, onde estava escrita a
frase “Seja Bem Vindo” em amarelo vivo.
-
Para dar sorte – ela falou, sorrindo. – você vai precisar.
A mulher elegante olhou o pulso para
ver as horas, mas lembrou-se que não tinha relógio. Deu de ombros, e voltou
para os ladrilhos do jardim. Saiu pelo portãozinho branco com um sorriso
maroto, como se uma grande diversão lhe aguardasse. Caminhou elegantemente de
volta até o ponto onde havia surgido. Ergueu a mão no ar e girou como se
abrisse a maçaneta de uma porta invisível. O ar repentinamente tremulou, e tal
como veio, a mulher elegante se foi.
Naquele momento as pessoas subitamente perceberam que a rua
lá fora estava maravilhosa, e para lá se encaminharam.